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Drogadição: Arte no viver e a Arte de viver

Artigo Publicado em: 22/11/16

 

Tanta gente hoje descansa em paz
Um rock star agora é lenda
Esse flerte é um flerte fatal
Esse flerte é um flerte fatal
Que vai te consumir
Em busca de um prazer individual
Esse flerte é um flerte fatal
É sempre gente muito especial
Quanta gente já ultrapassou
A linha entre o prazer e a dependência
E a loucura que faz
O cara dar um tiro na cabeça
Quando chega o além
E os pés não tocam mais no chão
Esse flerte é um flerte fatal
Esse flerte é um flerte fatal...

 

As linhas anteriormente expostas correspondem a um fragmento da música flerte fatal da banda Ira. Freud dizia que os poetas e os romancistas são os mestres do conhecimento da alma, e a partir da música, das diversas manifestações artísticas e por que não incluir a psicanálise, inicia-se uma discussão acerca do sujeito que tem em sua vida uma dependência química.

 

É possível compreendermos a adicção como uma paixão, um amor tóxico. O que é o bebedor se não um apaixonado que idealiza o objeto de amor? Uma devoção exagerada que traz junto de si um lado sombrio do amor (Gurfinkel 2014), um flerte fatal.A perspectiva kleiniana acerca da adição às drogas, fala que a substância química é tida como a fuga à dor e a depressão sentida como persecutória, concedendo, assim, a droga como objeto idealizado.

 

Tal idealização é proveniente da fixação ao seu objeto primário da posição esquizoparanóide, resultado de uma separação exageradamente hostil da criança ao seio materno (kalina, 1999). Na toxicomania há uma fixação ao objeto exclusivo na busca de prazer, um objeto fetiche que recebe uma importância sustentada por uma relação alienatória. O objeto de desejo passa a ser uma necessidade vital.

 

O toxicômano acarreta uma depressão melancólica que é pressentida como aniquilação (desintegração psicótica), e o objeto idealizado é um instrumento de preservação à experiência desintegradora da solidão sentida como morte. O toxicômano não suporta a solidão, pois na solidão atualiza, em si, à experiência do holding precário na infância. A autodestruição pela droga é a única chance de sobreviver (Kalina, 1999). Para Gurfinkel (2014) o uso compulsivo do objeto que domina o sujeito substitui o recurso do processamento psíquico das excitações pulsionais. Há uma exacerbação das ações e uma cristalização (atrofia) na capacidade de pensar, simbolizar e transformar a pulsão em algo pensável e representativo.

 

A adicção é uma patologia do agir. Conforme o agir impulsivo é predominante, se torna um traço de caráter, gerando um automatismo. As alterações na estrutura química da célula geradas pelo uso abusivo de drogas desenvolve no sujeito um falso instinto. Um instinto de autopreservação, representativo de uma necessidade vital, que não adia a satisfação sob o risco de ser afogado por uma ansiedade insuportável (Gurfinkel 2014; Nadvorny, 2006).

 

É uma realidade do dependente químico, devido suas rotinas e seu envolvimento com a droga que só aumenta com o passar do tempo, sofra inúmeras perdas em sua vida, seja no âmbito pessoal, familiar e social. Há uma perda do sentido de perda, em que, muitos acabam peregrinando nas ruas. Mas em muitos destes sujeitos é possível notar fortes traços de potencial artístico, na música, na pintura, na literatura, no artesanato e entre outros segmentos. Podemos citar artistas e pessoas talentosas que tiveram em sua vida uma dependência química, e até mesmo alguns, seu fim trágico pela droga, como Kurt Cobain, Jim Morrison, Amy Winehouse, Tim Maia, Dr. Sócrates e Mané Garrincha são alguns dos exemplos indiscutivelmente talentosos, independente de sua arte, mas que foram sucumbidos num processo de autodestruição no uso da droga.

 

No âmbito da clínica do tratamento é notável o potencial artístico do sujeito dependente químico que se apresenta a nós. Capaz de lidar com os objetos e coisas do mundo com extrema facilidade e maestria, mas extremamente comprometido na sua relação com si mesmo, suas emoções e enigmas, bem como, um colecionador de desafetos e conflitos interpessoais. O poeta Edgar Allan Poe, alcoolista, diz: Tudo que amei, amei sozinho.

 

O dependente químico e o viver criativo


A adicção é uma forma de dependência Gurfinkel (2014). Desde a mais tenra idade partimos de uma dependência que é absoluta. Posteriormente avançamos para uma dependência relativa, e por fim, rumo à independência, ou a busca de uma dependência madura, visto que, nenhum sujeito é totalmente independente (Winnicott 2007).

 

A personalidade do toxicômano é incapaz de realizar uma ruptura na simbiose com a figura materna. A mãe suficientemente boa sabe dosar o processo de gratificação e frustração ao bebê, bem como, auxilia-lo em seu desenvolvimento da dependência/independência. A mãe que se adapta as necessidades do bebê favorece e possibilita que o bebê possa criar o mundo, desenvolva a capacidade de ilusão, elemento fundamental na vida do ser humano para viver de forma criativa sem que o princípio da realidade seja demasiadamente hostil e persecutório.

 

Segundo Winnicott (1999), para ser criativa, uma pessoa tem que existir, e ter um sentimento de existência. Em certas pessoas as atividades que indicam que ela está viva não passam de reações a estímulos. Retire os estímulos e o indivíduo não tem vida.

 

O dependente químico vive sob a expectativa de um mundo extremamente idealizado, inclusive em si mesmo. Há quem questione a utilidade das ocupações rotineiras, como determinados tipos de trabalho ou costumes. Para o adicto é difícil manter a criatividade acerca de ver as mesmas coisas sob um olhar diferente a cada encontro, pois uma de suas características é a interrupção de projetos e metas, impossibilitando sua conclusão, seja no trabalho, nos relacionamentos e até mesmo no tratamento de sua dependência. Incapacidade de esperar e tolerar frustrações.

 

“A criatividade é, portanto, a manutenção através da vida de algo que pertence à experiência infantil, ou seja, a capacidade de criar o mundo” Winnicott p. 24. A criatividade está no fato de alguém ver tudo como se fosse à primeira vez. Não se limita ao perceber, mas sim a apercepção. A criatividade é própria do estar vivo, de sempre tentando, de algum modo, alcançar algo.

 

Para Gurfinkel (2014) a adicção é uma forma de escravidão, em que, o viciado perde sua capacidade de escolha, perde a capacidade de criar o mundo, não consegue absorver a afronta do principio da realidade.

 

É de extrema importância dissociar um ato compulsivo, estereotipado e cristalizado como na adicção, de tendências repetitivas amenas, próprias de qualquer sujeito na construção do seu estilo de vida, vistas, muitas vezes, em uma dimensão criativa. Tais momentos de reflexão e ideias criativas podem surgir nas condutas simples do dia a dia, como cuidar de si ou do espaço em que vive.

Perante a essas questões, compreendendo a dependência química/drogadição como um sintoma de saúde pública e um desafio na clínica psicoterapêutica de orientação psicanalítica, o que fazer?

 

Referências
- Gurfinkel, D. (2014). Adicções: Clínica Psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo.
- Kalina, E. (1999). Drogadição hoje: Indivíduo, família e sociedade. Porto Alegre: Artmed
- Nadvorny, B. (2006). Freud e as Dependências. Porto Alegre: AGE;
- Winnicott, D.W. (2007). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 1983).
- Winnicott, D.W. (1999). Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1989).

 

 


Por Lucas Tadra Beckert
Psicólogo clínico e Institucional
lucastadra@hotmail.com