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E A MACONHA?

Artigo Publicado em: 16/01/19

Políticos e outras lideranças, convencidos do fracasso da estratégia convencional de enfrentamento do consumo de drogas cada vez mais crescente no mundo todo, discutem a liberalização do uso de drogas, especialmente da maconha. Assim tem acontecido em alguns estados dos Estados Unidos e no Uruguai, por exemplo. Neste momento, é importante rever aspectos quanto a segurança do uso, mesmo que recreativo, dessa substancia. Os riscos que os componentes dessa planta geram não podem ser suprimidos diante de poucos supostamente benefícios que ela pode vir a causar.


A ideia é liberar o consumo da cannabis com a justificativa de que seria um mal menor. Essa opção, no entanto, pode ter sido equivocada, pois os problemas se agravam, dificultando ainda mais a consciência de uma situação que, por si própria, é de enorme complexidade. E isso porque a maconha e outras preparações da cannabis, ricas em delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC), conforme Relatório Mundial sobre Drogas de 2013, da Organização das Nações Unidas (ONU), comprovadamente prejudicam o funcionamento cerebral, com redução da memória, do aprendizado, prejuízos cognitivos, volitivos, intelectuais e para a saúde física em geral, ainda agravam transtornos mentais preexistentes, principalmente psicoses do grupo das esquizofrenias. Mais que isso: essas substâncias perturbam gravemente o amadurecimento da personalidade e a integração das experiências emocionais. A esquizofrenia, certamente, é a pior consequência − por sua irreversibilidade, enorme sofrimento e grandes prejuízos individuais, familiares e para toda a sociedade – porem, outras ações nocivas sobre o desenvolvimento individual são marcantes. Elas incluem o transtorno esquizotípico da personalidade (TEP) e alterações cognitivas, que também podem ser irreversíveis. Por tudo isso, de forma absolutamente preocupante, põem em risco a saúde geral da população, com consequências que sequer podem ser devidamente avaliadas.


As alterações físicas e mentais associadas à cannabis são relatadas há milênios e pesquisas científicas realizadas nas últimas décadas confirmam essa situação. Em 1987 foi publicada a primeira avaliação periódica de um universo de 50 mil suecos, acompanhados sistematicamente desde seu alistamento militar em 1969, quando tinham 18 anos de idade. Os jovens que na época já haviam usado cannabis 50 vezes ou mais, tiveram 6 vezes mais risco de internação por surto esquizofrênico. Durante muitos anos essa informação foi desvalorizada, por detalhes metodológicos da pesquisa. Esse risco foi recalculado 15 anos depois, como sendo de 2,3 vezes maior, após houve a exclusão de variáveis que poderiam ter contribuído para o desfecho anterior. Em 2011, a reavaliação, após 35 anos dos 50 mil recrutas suecos, com novas técnicas de controle, resultou em estimativas de risco 3,7 vezes maior para esquizofrenia, 2,2 vezes para psicose breve e 2 vezes para outras psicoses. Ainda em 2011, houve uma revisão da incidência de esquizofrenia em dez estudos na população geral de oito países − Suécia, Israel, Alemanha, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Grécia, dois estudos na Holanda e dois na Nova Zelândia – que indicou risco relativo de 1,5 a 4,3 vezes maior nos usuários de cannabis, que em não usuários.


Em 2012, a revista Schizophrenia Research, da Schizophrenia International Research Society, publicou um estudo com 804 americanos avaliados entre os 13 e 33 anos, mostrando que, entre os 567 que alguma vez usaram cannabis, os que se iniciaram antes dos 14 anos tinham maior risco de evoluir para um TEP, caracterizado por sintomas psicóticos atenuados, como experiências sensoriais incomuns, crenças não compartilhadas, comportamento estranho e isolamento social. Na adolescência o cérebro encontra-se particularmente vulnerável à ação de substâncias como o álcool e drogas em geral. Nessa fase da vida, os sistemas neuronais do córtex cerebral pré-frontal e do córtex parietal, responsáveis pela formulação do pensamento de maior complexidade e das funções executivas de um adulto normal, sofrem sequelas em suas sinapses com as alterações provocadas pelas drogas.


Apesar de as verdades científicas deverem ser transitórias, as evidências exigem um claro posicionamento em termos de saúde pública quanto ao uso da cannabis. Não há como justificar a legalização do uso de drogas como maconha, haxixe, ou mesmo o THC puro, nem mesmo para fins medicinais. Elas têm componentes tóxicos altamente perigosos e colocam em risco a saúde da população.


A descriminalização é uma questão importante e que justifica abordagens específicas, mas não pode ser confundida com a liberação do uso recreativo indiscriminado. Novas reflexões e pesquisas cientificas poderão contribuir para melhorar a saúde do conjunto da sociedade, principalmente das futuras gerações.


Micheli Krayevski Eckel
Psicóloga CRP 12/08587